A Instrução Normativa 51/02, do Ministério da Agricultura, que
regulamenta os novos parâmetros de qualidade para produção do leite
nacional, equiparando-os aos parâmetros europeus, entrará em vigor em 1º
de julho, apesar da resistência dos produtores. O anúncio foi feito
nesta semana pelo coordenador-geral de Inspeção do Departamento de
Inspeção de Produtos de Origem Animal do Ministério da Agricultura,
Marcius Ribeiro de Freitas.
A instrução normativa foi discutida em audiência pública da Comissão de
Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural. Marcius
Ribeiro explicou que, mesmo após a entrada em vigor das novas normas, o
Ministério da Agricultura está disposto a discutir ajustes com todos os
elos da cadeia produtiva do leite.
Editada em 2002, a instrução torna obrigatória a redução em 87% da
quantidade de bactérias e em 50% a contagem de células somáticas
presentes em cada mililitro de leite. Quanto menor o número de células
somáticas, melhor o estado sanitário das glândulas mamárias dos animais.
Adiamento
O presidente da Confederação Brasileira de Cooperativas de Laticínios,
Paulo Roberto Bernardes, defendeu o adiamento do prazo da instrução
normativa e a adoção da proposta da câmara setorial, que prevê uma
redução gradual das percentagens de bactérias e células somáticas
estabelecidas pelo governo.
No caso da percentagem de bactérias no leite, por exemplo, que hoje é
de 750 mil por mililitro de leite, teria de baixar para 100 mil pela
instrução normativa. A câmara setorial sugere baixar o índice para 600
mil, com a redução gradual a cada ano, até que a meta seja atingida.
Paulo Bernardes considera absurdas as exigências da instrução normativa
do Ministério da Agricultura. "A Embrapa, que é uma empresa confiável
do governo, diz que, se for aplicado o que está na Instrução Normativa,
95% dos produtores brasileiros serão excluídos. Isso é impossível. Vai
ser a lei que não pega. E lei que não pega desmoraliza quem a faz."
Agricultura familiar
Os agricultores familiares também apoiam a sugestão da Câmara Setorial.
Além de cobrar tratamento diferenciado em relação aos pequenos e
grandes produtores, eles criticam a insuficiência de políticas públicas
destinadas às famílias produtoras de leite. A coordenadora-geral da
Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura
Familiar, Elisângela dos Santos Araújo, lembra que, em vez de medidas
restritivas, o governo deveria viabilizar políticas públicas de
assistências técnica, infraestrutura e logística para os agricultores
familiares.
O autor do requerimento para a audiência pública, deputado Marcon
(PT-RS) destacou que a reivindicação dos produtores é justa e o
consumidor brasileiro, segundo ele, pode ficar tranquilo em relação à
qualidade do leite nacional. "O leite passa por um processo de
industrialização que não tem problema nenhum quanto à contaminação de
doenças e qualquer coisa."
Impactos positivos
Paulo de Oliveira Polese, assessor da Secretaria de Política Agrícola
da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura, também
manifestou apoio à proposta da Câmara Setorial. Ele afirmou que a
instrução merece uma discussão mais ampla, que inclua inclusive uma
avaliação dos impactos positivos que a instrução normativa já promoveu.
Já Gustavo Valone, representante do Departamento de Geração de Renda e
Agregação de Valor do Ministério do Desenvolvimento Agrário, disse que o
setor passou por muitas transformações nos últimos anos e hoje inúmeras
fábricas estão inclusive habilitadas para exportar.
O Brasil é o sexto maior produtor mundial e a produção de leite cresce
4,5% ao ano. Segundo ele, o grande potencial do Brasil está nos
agricultores familiares. Ele avalia que a transformação imposta pela
instrução normativa pode trazer crise para alguns, mas será benéfica.
"Somente produto de alta qualidade pode concorrer com conglomerados
internacionais."
Deixe um Comentário:
0 comments:
Postar um comentário