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Projeto incentiva atividade de pecuaristas familiares

Foto: Ricardo Moura
Um trabalho para o fortalecimento das cadeias produtivas locais foi capaz de inverter a lógica do desenvolvimento agropecuário em uma das regiões do Estado que permaneceu à margem dos principais avanços produzidos nos últimos anos.  Iniciado em 2002, o Projeto Alto Camaquã envolveu pesquisadores da Embrapa, pecuaristas familiares e lideranças de vários municípios da chamada Serra do Sudeste.

Com foco principal na articulação de diferentes grupos em torno de uma causa comum, a iniciativa conseguiu unir os interesses de mais de 400 famílias que integram 21 associações comunitárias. São pecuaristas de oito municípios pertencentes à orientação superior da bacia do Rio Camaquã que encontraram nas referências locais o principal aliado para a conquista de novos mercados.

Reunidas, atualmente, na chamada Rede do Alto Camaquã, as famílias também formaram uma associação regional que coordena a base das entidades de Bagé, Lavras do Sul, Caçapava do Sul, Santana da Boa Vista, Encruzilhada do Sul, Pinheiro Machado, Canguçu e Piratini. A ideia consiste em agrupar os produtos e serviços da região em um mesmo guarda-chuva. Para isso, foi criado um selo de distinção que permite associar os produtos a sua origem e instrumentalizar a coesão entre os diferentes produtores.

“São 400 famílias que não se conheciam há pouco mais de seis anos e hoje perseguem interesses comuns. Estabelecem pactos e acordos para atingir metas em comum. Não tratam apenas da questão econômica. Por isso, configuram o que chamamos de capital social, ou seja, pessoas articuladas entre elas, com instituições e o poder público para dentro de uma organização promoverem seus produtos”, afirma o pesquisador da Embrapa Pecuária Sul, Marcos Borba.

Borba, que coordenou a iniciativa após concluir o doutorado em Agroecologia, sociologia e desenvolvimento rural sustentável na Espanha, será reconhecido com o Prêmio Futuro da Terra pela contribuição para a agricultura familiar gaúcha. Sua visão de desenvolvimento é responsável pela consolidação de um modelo de produção que até então encontrava muitas dificuldades para transpor as barreiras mercadológicas. 

Uma mudança de enfoque detectou que os modelos convencionais de produção agrícola não serviriam para a região, pois a topografia não comportaria a mecanização e o ganho de escala, em função do tipo de terreno, com declive, solo raso e afloramento de pedras. Por outro lado, o mesmo bioma permanece como um dos mais conservados do Rio Grande do Sul, com cerca de 90% de vegetação ainda nativa.

O diagnóstico inicial identificou formas de produção que deveriam ser percebidas pela perspectiva da sustentabilidade. Isso porque as atividades pecuárias em questão utilizam apenas energias renováveis. “Se é possível produzir de forma diferenciada, com a pecuária de energias renováveis, sol, chuva e conhecimento, não seria indicado que esses produtos chegassem ao mercado de forma indiferenciada. Ou seja, desenvolvemos uma estratégia de diferenciação destes produtos. Hoje, constituímos uma marca coletiva com caráter territorial, que comunica, principalmente, as características do território e, por consequência, produtos e serviços oriundos destas propriedades. A ideia é que sejam compreendidos como provenientes não só de uma região, mas de uma forma de produzir especial”, comenta.

Diferenciação pode virar uma estratégia de Estado

A estratégia de diferenciação dos produtos funciona como um elemento de transformação da realidade e, fundamentadamente, de conservação dos recursos naturais. As regiões tradicionais, com características anteriores ao que se convencionou chamar de modernização da agricultura, oferecem, além de produtos pecuários, uma gama de benefícios aos chamados serviços ecossistêmicos. Entre os aspectos em destaque, estão a maior eficiência no sequestro de carbono, a preservação da biodiversidade e as contribuições para regulação climática.

Marcos Borba identifica que as características possuem potencial para serem incluídas dentro de um projeto de Estado.  Isso, porque a consolidação das boas práticas de manejo colabora com a manutenção da Bacia do Camaquã.

“Tentamos demostrar que não são regiões pobres e atrasadas, mas que possuem características diferentes e que podem muito bem serem consideradas estratégicas dentro de um projeto de Estado. Se retirássemos essas atividades pecuárias a partir do uso de campos naturais, causaríamos impactos ainda não dimensionados”, exemplifica.

Borba destaca que as temáticas intensivas trabalhadas junto aos pecuaristas possibilitaram a construção de uma base de novos conhecimentos a respeito do sistema natural que eles próprios operam. Ou seja, os sistemas de campo, os fluxos de energia e as respostas associadas às mais variadas práticas de manejo abrem as porteiras para melhorias da eficiência produtiva e também de preservação dos ecossistemas. 

Via:JC
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